Discurso do orador da minha formatura

Planejava escrever um texto sobre sonhos e como eles mudam há algum tempo já. Não sei dizer exatamente desde quando, mas um dia notei como meus sonhos naquele dia eram completamente diferentes dos sonhos que eu tinha há somente um ano atrás. E algumas semanas depois estava falando sobre isso com minha irmã e me veio a ideia do texto. Anotei a ideia, mas deixei-a ali, descansado. Quando não é minha surpresa, na minha formatura, meu colega querido, André Borba, orador da turma, no seu discurso fala exatamente sobre isso (e mil outras coisas). Nesse post vou colocar o discurso de formatura dele e, em outro momento, colocarei mais ou menos o que eu já tinha pensado em escrever (mas honestamente, muito do que ele falou era exatamente o que eu planejava escrever).

So, here it goes (cortei o início pra ir ao que interessa e o fim porque era só obrigado pela atenção e boa noite…):

 

“Sabe… muitas coisas não acontecem do jeito que a gente planeja. Pessoas entram e saem das nossas vidas, por bem ou por mal; imprevistos acontecem; chances aparecem; planos mudam; a vida acontece. Esse curso de Biomedicina e essa noite de hoje são os exemplos mais MARAVILHOSOS que eu tenho disso. E por quê?

Aos que não me conhecem aqui, boa noite, eu sou o André. Essa turma que se forma hoje, a 2016, não era minha turma original. Eu sou do bando das atrasadas dos idos de 2014. De fato, se tudo tivesse saído como eu havia planejado, há SEIS anos atrás, eu não teria conhecido quase ninguém dessas pessoas maravilhosas que dividem esse palco comigo hoje. Eu e meus planos estaríamos entrando no doutorado – no exterior, de preferência -, já com alguns artigos publicados e sendo disputado para lecionar e pesquisar em universidades por esse mundo afora. Ah! Quanta ingenuidade. Mas, como eu disse, planos mudam – e ainda bem que mudam; a vida acontece e ela não tá nem aí pra carreira dos nossos sonhos ou pro nosso suposto futuro brilhante. Mas ela, a vida, tem um jeito misterioso e extraordinário de torcer nossas expectativas, virar elas do avesso e jogar elas de volta na nossa cara. E… sabem de uma coisa? Às vezes isso acaba sendo infinitamente melhor do que tudo aquilo que achávamos que queríamos.

O dia em que fui escolhido para ser orador, eu fiquei infinitamente lisonjeado; justamente por esta não ser minha turma original. Mas, como percebi um tempo atrás, isso não quer dizer que esta não seja minha turma também.

Tenho aprendido ao longo desta minha – até agora – curta vida, que orgulho, o orgulho de verdade, não é algo que vem fácil. E, meus caros colegas, se me permitem dizer algo, não é de hoje que vocês, que nós, me enchem de orgulho. Eu não vou fingir, só por estar neste púlpito, que sei qualquer coisa dessa vida a mais que vocês, que possuo alguma sapiência superior que me torna capaz de vos aconselhar a qualquer coisa. A verdade é que eu não tenho certezas, que eu não sei de nada. Eu posso estar redondamente enganado em tudo o que eu disser aqui hoje, mas vamos fingir, por um momento, que eu sei do que eu estou falando, que eu sei algo de alguma coisa. E, nesse tom, eu não consigo deixar de me sentir a tiazona da turma – cadê a Neidi? Neidi, eu sei que esse título é teu, só teu, tô meramente me inspirando em ti – eu não consigo deixar de me sentir a tiazona da turma ao dizer: vocês me TRANSBORDAM de orgulho, e espero que vocês se transbordem também.

Vocês lembram de quando a decisão mais difícil que a gente tinha era escolher entre pega-pega e esconde-esconde no recreio? Era brincar de casinha ou de médico? Era decidir se assistiríamos à Caverna do Dragão, à DragonBall ou ao Sítio do Pica-Pau Amarelo? Lembram de quando a nossa manha era pra poder brincar de bola até mais tarde ou ficar jogando vídeo-game a noite toda? Ou quando os assuntos mais importantes eram ‘quem o Fulaninho beijou na festa passada?’ Vocês lembram?

Olhem para si mesmos agora, todos bonitos, bonitas de toga, arrumadas e arumados. Quem diria, hein? Quem te viu, quem te vê!

Mas voltando… agora a decisão não é mais esconde-esconde ou pega-pega. Não, senhoras. Agora a gente escolhe qual mestrado fazer, SE quiser fazer mestrado; escolhe onde deixar currículo; decide onde ir morar; quais contas dar preferência em cada mês; a gente escolhe tupperware ou se vale mesmo a pena aquela comprinha na amazon… é, galerinha, a brincadeira acabou. Agora… agora é aluguel, é boleto, é parcela, é INSS, é conta pra pagar, são planos pra fazer, reuniões pra agendar, e-mails pra responder, fila pra pegar.

Esse diploma não parece mais tão bom, não é?

Não sou uma pessoa de criar expectativas. Inclusive, gosto de pensar – deveras simplesmente – que a ausência de expectativas se iguala à ausência de frustrações, especialmente quando são expectativas infundadas. Mas nós não somos infundados. E eu espero algo brilhante de cada um de vocês aqui. De fato, tenho certeza que daqui algum tempo estarei usando alguns nomes daqui como referência. Vocês são espetaculares, nós somos espetaculares.

Eu sei que até agora eu falei do quanto orgulho eu tenho dessa turma e que nós deveríamos nos orgulhar de nós mesmos. Porém, humildade é tão importante quanto. Talvez um dos nossos maiores desafios seja achar aquele doce balanço entre humildade e orgulho. Humildade demais vira vergonha. NUNCA, e eu enfatizo: NUNCA sintam vergonha por ser que vocês são, de ser quem somos. Humildade à parte, a gente é bom demais pra isso.

Entretanto… Orgulho demais vira soberba.

Então, não sejam apenas o tipo de referência que eu posso citar em um trabalho acadêmico. Sejam mais que isso. Sejam aquele professor e aquela professora que recebe os alunos na sua sala, que os ouve. Sejam aqueles profissionais que se preocupam com a pessoa por trás de um tubo de sangue, de um prontuário eletrônico, de uma seringa qualquer. Sejam aquela orientadora e aquele orientador que sentam com os seus alunos e discutem e que se importam de verdade. Não sejam somente as suas publicações, suas cadeiras na faculdade, seus índices Hs. Sejam para os outros a referência que vocês já são para mim. Sejam vocês mesmos, por mais difícil que isso possa ser às vezes.

Meus colegas, sejamos sinceros agora: muitos de vocês eu provavelmente não verei de novo depois de hoje ou perderemos contato com o passar dos anos. E isso não é bom, também não precisa ser ruim, somente é. É como a vida acontece: caminhos se bifurcam e levam a lugares diferentes. Mas não duvidem, meus caros colegas, nem por um segundo, que eu desejo algo além de sucesso e felicidade para vocês, para nós, da forma que eles vierem. E sucesso é só UMA das coisas que sairão desta fornada de novos desempregados de hoje, eu tenho a mais absoluta certeza. Porém eu também desejo que todo esse sucesso não seja NUNCA o suficiente para tirar o brilho dos seus olhos, esse mesmo brilho que resplandece com tanta força hoje. Além de sucesso, eu desejo sempre que nós possamos olhar a vida com a empolgação de uma criança que descobre as coisas pela primeira vez, com a paixão de aprender cada vez mais. Esse é o brilho que eu imploro a vocês que nunca percam.

Lembrem de hoje, lembrem dessa graduação, lembrem dos momentos mais felizes e mais aterrorizantes que já passamos aqui. Lembrem com todo o espírito de vocês, até quando lembrar não seja mais possível. Lembrem das risadas, das aulas de ressaca, dos trabalhos nunca entregues, dos seminários intermináveis, das pescadas de sono, das notas injustas, das avaliações impensadas, das lutas vencidas e das lutas perdidas, dos abraços, das brigas, dos conselhos, dos sustos, dos choros, dos momentos de solidão e daqueles momentos em que o ÚNICO conforto possível estava no ombro de um querido amigo. Lembrem de tudo isso, pois, mais do que QUALQUER outra coisa, mais do que uma coordenação de curso, mais do que professores ótimos ou horríveis, mais do que trabalhos enormes, mais do que noites viradas, mais do que livros lidos, mais do que monografias escritas, mais do que artigos publicados, lembrem desses momentos. Pois, mais do que qualquer outra coisa, são ELES que formam os profissionais aqui, hoje. Meus caros, que nunca deixemos um pedaço de papel enrolado nos dar a parca ilusão de que somos melhores do que qualquer outra pessoa.

Uma última vez, peço que olhemos para nós mesmos de novo. O mundo está a nossa frente, dizendo, clamando, berrando a todo o pulmão “venha, me explore!”. Vejam as portas deste salão como as portas do resto de suas vidas, portas de mogno, portas de mármore, portas grandes, pesadas e imponentes que não mais se abrem numa tímida fresta, deixando entrepassar um lusco-fusco do mundo lá fora. Não! Agora essas portas estão ESCANCARADAS com os ventos do novo mundo. Respirem com vontade, deixem esse vento bater na sua cara, soprar por seus cabelos. Batam no peito com todo o vigor da juventude que ainda nos resta, icem velas, naveguem por águas escuras. É chegada a hora de ficarmos de pé com as nossas próprias pernas, de caminharmos com os nossos próprios pés. É sempre bom ter um porto seguro, mas não deixem que esse porto os impeça de naufragar, se naufragar for preciso. Não esperem que a felicidade lhes seja entregue numa bandeja dourada. A felicidade está na lama, está nos calos dos dedos, está na sujeira por debaixo das unhas. Deixo aqui meu desejo de que possamos forjar a nossa felicidade, e que esse diploma que recebemos hoje possa ser a nossa bigorna, a nossa foice e o nosso martelo. O resto… Tenham certeza, o resto virá.

Me despeço com uma simples mensagem:

Esta noite É nossa!

Pra quem achou que a gente tinha terminado, meu bem, a gente ta só começando.”